Fortnite vai rodar no Linux: entenda o novo Easy Anti-Cheat


São pouquíssimos os jogos online que me acompanham de verdade. Overwatch está comigo nos seus 10 anos de existência, mas eu sempre dei uma escapada para o Fortnite — principalmente depois que ele ganhou modo sem construção e, acima de tudo, o modo Rock Band, já que sou apaixonada por jogos musicais como Dance Dance Revolution, Pump It Up e Guitar Hero.

Até que hoje eu acordo e recebo a seguinte notícia na cara:

O Fortnite está chegando ao Linux. E não é boato de corredor: o anúncio veio da própria Epic Games, junto com o lançamento do novo Epic Games Launcher em Preview para Linux — a primeira vez que a loja da Epic tem um cliente nativo para o pinguim.

Já havia alguns meses eu suspeitava disso, porque a Epic havia anunciado que lançaria o Epic Games Launcher para Linux. Mas eu pensava: “ok, vão lançar o launcher para o Linux, mas e o prato de entrada deles, que é o Fortnite, não vem? Vai ficar simplesmente parado no Windows, sem esforço algum para colocar o anti-cheat no Linux?” Hoje vemos que tudo está se desenrolando bem — e a resposta para essa pergunta é a peça mais interessante da notícia.

Por que o Fortnite nunca rodou no Linux? O Easy Anti-Cheat

O Easy Anti-Cheat (EAC) — a solução anti-trapaça da Epic, usada não só pelo Fortnite mas por centenas de jogos online — suporta clientes Linux nativos desde 2014. E desde 2021 existe até suporte para rodar builds de Windows no Linux via Wine/Proton. O problema? Esse suporte sempre foi opcional para cada jogo, e justamente por isso o Fortnite nunca chegou: a implementação Linux do EAC não oferecia o mesmo nível de proteção que a versão de Windows, e a Epic não estava disposta a liberar o seu maior jogo competitivo com um anti-cheat “menos protegido” contra trapaças.

O contexto aqui é pesado: trapaça em jogos online deixou de ser uma indústria de fundo de quintal e virou um mercado bilionário, com operadores vendendo assinaturas de ferramentas de cheat atualizadas constantemente e fáceis de usar. Sem um anti-cheat eficaz, esses caras expulsam jogadores de um jogo até ele deixar de ser financeiramente viável para o desenvolvedor. Ou seja: a Epic não estava punindo o Linux por (200% de) maldade — ela estava com medo de abrir uma porta para os cheaters e medo da Valve também.

EAC Linux v2: a reconstrução que destrava tudo

A solução anunciada é o EAC Linux v2: uma reconstrução da implementação Linux do Easy Anti-Cheat para levar o nível de proteção para “muito mais próximo do Windows”. E o caminho que a Epic escolheu é usar recursos que já existem no Linux:

  • Kernel assinado e módulos de kernel assinados
  • Secure Boot com atestação (attestation)
  • TPM 2.0 habilitado na BIOS
  • Measured Boot (GRUB e systemd-boot fazem por padrão)
  • IOMMU habilitado (não necessário em portáteis)
  • Drivers extras (como os da NVIDIA) assinados com chave confiável

Traduzindo: distros com kernel assinado e Secure Boot por padrão — como Ubuntu, Fedora, Debian, openSUSE e até a nossa querida Bazzite — já entregam boa parte do que o EAC v2 exige. Quanto mais distribuições atenderem a esses requisitos por padrão, menos jogadores precisarão mudar configuração alguma para jogar. E a Epic está indo atrás disso de verdade: já está entrando em contato com mantenedores de distros, vai coorganizar um painel com Jef Spaleta, líder do projeto Fedora, ainda este ano, e manterá uma lista de chaves confiáveis (well-known key list) que pretende tornar open source e aceitar PRs da comunidade. Mantenedores de distro podem falar direto com a Epic pelo linux-gaming@epicgames.com.

O piloto será o próprio Fortnite: a Epic testa o EAC v2 em ambiente real, refina com o que aprender e só depois abre a tecnologia para outros desenvolvedores levarem seus jogos multiplayer para o Linux. É o começo de um efeito dominó — o anti-cheat era justamente a última grande barreira.

Native ou Proton? Minha dúvida de jogadora

Outra questão que fico me perguntando: o jogo vai ter uma versão nativa para Linux ou vai rodar pelo Proton? Como mencionei, jogo Overwatch há bastante tempo, mas estou no Linux há apenas um ano. Tive alguns problemas que foram culpa minha, mas hoje tudo funciona muito bem — exceto por uma descoberta recente: o shader cache funciona muito melhor se trocarmos a *.dll do DLSS para a versão mais recente. Então estou muito curiosa para ver como o Fortnite vai acabar rodando no “linucão“!

O Epic Games Launcher para Linux (e a confissão da Epic)

Lançado hoje às pressas, o Launcher da Epic para Linux veio no formato mais padrão possível para as distros: *.AppImage. E está tão, mas tão vibe-coded que a própria Epic admite — de forma oficial e no mínimo divertida:

No texto de anúncio, a Epic é ainda mais direta: “Programming is hard. So, instead of doing that, we vibe coded a new Epic Games Launcher that’s way faster and more responsive” — “programar é difícil, então, em vez de fazer isso, a gente vibou um launcher novo”. E completa com a humildade do produto: “pense nele como um barco de corrida, não num iate”. Sim, o Preview até tem tecnologia avançada de comércio digital, como um carrinho de compras. (A sopa de letrinhas tecnológicas do lançamento: conta Epic, jogos comprados, jogos instalados, cloud saves e progresso — tudo amarrado à conta e carregado para o Preview e para a versão final.)

Do que adianta querer ser mais rápido que a Steam para sair da bandeja do sistema, algo relativamente banal, assim como o tempo de inicialização — sendo que o Epic Launcher no Linux é esse treco aqui:

Novo Epic Games Launcher Preview rodando nativamente no Linux

Inclusive, o que está aparecendo de jogos ali são os meus jogos da Steam — e não os da minha conta Epic:

Epic Games Launcher no Linux exibindo a biblioteca de jogos da Steam

E vejam só: o Fortnite aparece na biblioteca. Acabei de ver que o jogo já está listado — bora ver se já é possível jogar!

Fortnite listado no Epic Games Launcher para Linux
Tela do Fortnite no Epic Games Launcher para Linux
Página do Fortnite no Epic Games Launcher para Linux

Mas o anti-cheat ainda não está ativo, como podemos ver:

Erro do Easy Anti-Cheat ao tentar iniciar o Fortnite no Linux

Esse é o famoso erro quando o Easy Anti-Cheat não consegue rodar — então teremos que esperar mais um pouco, até o EAC Linux v2 ser ativado no piloto do Fortnite. Mas o caminho está pavimentado: launcher nativo, jogo listado, anti-cheat em reconstrução e a Epic conversando com mantenedores de distro. A pergunta agora não é mais “se”, mas “quando”.

Contexto: por que isso é gigante para o Linux

O Linux como plataforma de jogos deu passos enormes nos últimos anos — Steam Deck e Proton provaram que o ecossistema é viável, e o SteamOS já roda em desktops. Mas o anti-cheat sempre foi a barreira: jogos competitivos como Fortnite, Valorant e Rainbow Six Siege ficaram de fora justamente por depender de soluções que exigem acesso profundo ao sistema — algo que, no Linux, esbarra em kernel, drivers e assinatura. Com a Epic reconstruindo o EAC de forma colaborativa com as distros (em vez de improvisar um módulo proprietário qualquer), o Linux ganha o primeiro jogo competitivo de peso com suporte oficial — e abre a porta para outros desenvolvedores seguirem o mesmo caminho.

“O Linux venceu” pode parecer exagero de quem escreve com o coração — mas quando a maior produtora de jogos da atualidade (e dona do Unreal Engine) reconstrói um anti-cheat inteiro para trazer o seu carro-chefe ao pinguim, não é vitória retórica: é a indústria admitindo que o jogador de Linux virou mercado grande demais para ignorar.

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